domingo, 24 de julho de 2011

Diz a lenda – Cozidão do Buchudo

Por: Beto Ramos

Domingo de sol.
Dia lindo.
Cheio de vida e esperança.
Lembrei-me do meu pai.
O velho “Buchudo”.
Meu pai pintou o céu de Rondônia com muitas cores.
Aos domingos ele sempre gostava de fazer um cozidão.
Um cozido cheio de verduras e tudo o que vocês possam pensar.
Com batata doce, macaxeira, banana comprida, maxixe, couve, repolho, batatinha, jerimum e o que estivesse ao alcance da mão.
Como ele dizia era o que dava sustança.
Era comer e sair cuspindo bala.
Meu pai foi jogador no futebol de Rondônia.
Atuou no São Domingos, Cruzeiro...
Mas ele gostou mesmo foi do Vasco da Gama do Fera.
Os meus domingos são meio vazios.
Ainda sinto o cheiro do cozidão do Buchudo.
Regado a muita birita.
Quando ele enrolava a beira do calção, era difícil segurar o velho beradeiro.
Festa durava três dias lá pras bandas da Torre, Jararaca.
E lá ia ele com Gonzaga, Moacir, Dom Caxito, Prego, Jarbas, Bedeco, Rufino, Suruca, Roberval, Jaguné, Bezerra, Geraldo (índio), Jorge de Paula (Palito), Ivo do Bar do Canto e muitos outros.
Passava no Meio Quilo, Madame Elvira.
E saía no bloco do Jaguné, Cherevause, sempre vestido de mulher.
Bate bola era no quilômetro oito com a turma do Cosmos.
Ele era o menorzinho da turma.
Mas, no quesito cozidão não tinha pra ninguém.
Ele era o maior.
Lembro-me que ao terminar a comilança, ele dizia: - Estou sartisfeito!
Meu pai foi pro andar de cima.
Mas era cheio de conversa.
Boas histórias.
Além de protagonizar boas histórias.
Talvez tenha sido bom amigo.
O Sílvio Santos foi companheiro de algumas aventuras.
O Torrado, Babá e Bainha também.
Lembro-me que certa vez, meu pai foi pintar a casa do Torrado.
Por pura gozação deixou cair uma lata de tinta na cabeça do velho sambista.
Lá estava o negão todo pintado da cabeça aos pés.
O Torrado após muito tempo, disse que só não deu umas lapadas no Buchudo porque ele correu.
Depois tudo era só gozação.
Certa vez ele disse que havia aberto uma conta no Badresco.
- Mas é Bradesco!
- Quem abriu a conta fui eu, então chamo o banco como eu quiser!
E por muito tempo ficou sendo Badresco.
Por estes dias vou fazer um cozidão, e convidar muitos amigos.
Mas, vai ser um cozidão estilo Buchudo.
Com tudo que você possa pensar.
Como ele dizia: - Da largura da boca.
Taciturno que sou, vejo o domingo passar cheio de boas lembranças.
O tempo é o senhor dos nossos destinos.
Mas, talvez ele não tenha provado do cozidão do meu velho pai o Buchudo.


Diz a lenda

terça-feira, 19 de julho de 2011

Diz a lenda – O trem passará?

Por: Beto Ramos


A vida passando diante dos olhos.

O trem parado, sem fumaça e sem vapor.

Crianças que ainda não entendem da história, brincam na máquina que é a origem de suas histórias.

Pessoas passando a todo o momento.

Falando alto.

Com passos apressados em busca de algum sonho.

Os velhos funcionários da EFMM, já com seus passos lentos, ainda alimentam suas esperanças por dias melhores para os trilhos que sempre ficam em silêncio.

Mendigos e tapumes, como a cerca que existiu um dia dividindo o inicio de Porto Velho.

Coisas fora do lugar.

Lugares sem possuir as coisas de outrora.

Galpões cheios de fantasmas que assombram quem imagina que o fim do arco íris é ali.

O maior evento cultural daquele espaço bem que poderia ser a reativação de alguns trechos de nossa Estrada de Ferro.

Mas, o sonho continua diante da banda que toca alto e exalta o verde que fez a nossa história ficar com um tom acinzentado diante das estrelas dos generais.

Os trezentos e sessenta e quatro quilômetros da Estrada de Ferro tornam-se obstáculos, assim como as cachoeiras destruídas da nossa história.

A vida passando diante dos olhos.

Conhecendo o passado desvendamos o futuro.

Esquecendo o passado alimentamos os monstros que poderiam se afogar nas águas do rio Madeira.

Precisamos lembrar O bobo de Clarice Lispector.

Tragam de casa suas cadeiras para ver o nosso trem fantasma da história.

Mas, não olhem atrás do tapume.

Ali pode ficar o monstro que engolirá um pedaço da nossa história.

A vida passando diante dos olhos.

Loucos observam o por do sol.

Pobres coitados compõem seus versos meio ao povo que fica assustado com tantos passos sem direção.

Camaradas e companheiros se atropelam perto da protegida rotunda.

Falam línguas diferentes da época da construção da Estrada de Ferro.

Armam o povo com palavras.

O povo não está sem texto.

Sem texto ficam os que acham que convencem com suas palavras bonitas.

O trem do tempo com certeza passará.

Quem ficará na estação do passado, os bobos ou os que possuem discurso bonito?

Diz a lenda



Diz a lenda

terça-feira, 12 de julho de 2011

Diz a lenda - Povo

Por: Beto Ramos

Eu vi você sair triste por ai.
Não se sentou à mesa de um bar.
Foi na Madeira Mamoré, e viu as frias construções de concreto que invadiram nossas retinas.
A curva do rio ficou estranha.
Já não podemos esperar a época da pesca.
Eu vi você sair por ai.
Olhos perdidos.
Agora olhando para cima.
São prédios que não possuem quintais.
São cheios de segurança.
A cada dia colocam abaixo um pedaço da nossa história.
O pouco que resta, ainda é motivo de disputas que te fazem ficar mais triste.
Ainda existem as castanholas.
Mas, até quando?
Ali perto da Ladeira Comendador Ceteno, o moderno asfalto soltou-se da rua, e deixou aparecer às pedras de antigamente.
Fique bem claro que não são pedras no sapato de quem cuida de nossa história.
Eu vi você sair triste por ai.
Triste por não se contentar com migalhas que desejam deixar para a história do nosso povo.
O poeta cantou: Da Candelária eu vi o trem passar.
Sabe poeta vamos todos esperar, e o trem não vai passar.
O trilho está suspenso no ar.
Vazio como as promessas dos santos do pau oco.
Cuidado com sua tristeza, pois ela precisa possuir certa postura.
Talvez o desejo de alguns seja mandar até na nossa tristeza.
E jogam migalhas para os pombos brancos da paz.
As aves de rapina continuam com seus discursos bonitos.
Entrincheiradas na luta sem inimigos.
Discursos sempre na primeira pessoa.
Cheios de reuniões para defenderem os seus interesses.
Os interesses de um povo não possuem uma só cor.
No céu de um povo não existe uma só estrela.
As pedras no caminho trazem certa paz.
Elas são uns retratos em preto e branco do que não voltará mais.
Eu te vi sair por ai.
Completamente em silêncio.
Sem texto.
Mas, com o desejo de mudanças.
Eu te vi sair por ai meu povo.
Muitas vezes encarnado de vergonha.
Começando a sair algo irá mudar.
Quem sabe não mude o discurso na primeira pessoa!

Diz a lenda

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Diz a lenda – Serra velho

Por: Beto Ramos


Essa história ou estória é do tempo em que existia uma igreja de madeira onde fica a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ali no centro de Porto Velho.

Também é do tempo em que os namorados passeavam de canoa no lago que se formava atrás do Cine Teatro Resky na época do inverno.

Poderia ser do tempo da ponte Guapindaia.

Acontecia sempre na semana santa.

Serra velho.

Está é uma brincadeira, que poucos conhecem.

Sua origem é portuguesa.

Perto da meia noite, a turma se juntava, saindo para escolher a vítima.

Era um vozerio danado pelas ruas.

Traziam um serrote, algumas tábuas, para alguns talbas.

Dois camaradas acompanhavam somente para chorar.

O testamento estava escrito no bolso.

Era um barulho infernal, justamente para incomodar o escolhido.

Claro que sempre tomavam umas e outras.

Logo, alguém começava a ler com voz chorosa:

- Seu dono da casa, aqui está o seu testamento, e nós gostaríamos de saber para quem o senhor vai deixar a sua filha. O resto da rapaziada começava a chorar e pedir para ele não partir que ainda era muito novo.

O cara do serrote começava a serrar um pedaço de tábua, reco-reco-reco-reco-reco.

E dizia para o dono da casa não se preocupar com o caixão, que eles estavam fazendo.

Era um alvoroço só.

- E para quem o senhor vai deixar sua dentadura?

- E sua Casa?

- E sua aliança?

- O tempo está passando seu dono da casa.

E o cara do serrote, reco-reco-reco-reco.

- E suas galinhas?

A cada indignação do dono da casa, a turma chorava mais e lamentava a sorte do escolhido.

Claro que o dono da casa dizia cobras e lagartos.

- Cadê o seu relógio, para quem o senhor vai deixar?

E o cara do serrote reco-reco-reco-reco-reco.

- Já está quase pronto o senhor vai se decidir ou não?

Ai chegava o cara com a pá, dizendo que era para cavar o buraco pra enterrar o dono do testamento.

Nessa hora o dono da casa saia pronto para brigar.

Dentro da casa as filhas choravam.

A esposa já preparava chá de cidreira.

Neste momento a turma corria, sorrindo e comemorando muito.

E logo começavam a escolher a próxima vitima.

Porto Velho provinciana sempre vai morar dentro dos nossos corações.

Mas, não se assustem se qualquer dia desses baterem na sua porta e alguém pedir para ler o seu testamento.

Reco-reco-reco-reco-reco-reco-reco.

Quem souber contar mais, que conte mais cinco.



Diz a lenda

DUZENTOS E CINQUENTA EM QUATRO I

Os pesadelos não podem ofuscar nossos sonhos. Diante da inconsequência de quem resume a vida dos outros na sua prisão de lamentos, ...