quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Diz a lenda - Palavras ao vento

Por: Beto Ramos


Um dia busquei me fazer poeta.
Poeta, jamais!
Quando adolescente, lia e relia os sonetos de Alphonsus Guimarães, conhecido como o solitário de Mariana.
Como sonhei ser Alphonsus Guimarães.
Veio o período da rebeldia.
Época da poesia marginal.
Com prosas cheias de contestação.
Foram os melhores dias de minha vida.
Amigos cheios de criatividade.
Pintores, poetas, futuros músicos, dançarinos, cartunistas e todos loucos como eu.
Era tempo de recitar poemas nas ruas, nas praças e principalmente nos bares da vida.
Nunca gostei de métrica ou textos muitos cheios de palavras difíceis ou cem por cento perfeitinhos para os críticos de plantão.
Existiu o período em que fui Duck Blue, o pato azul.
E meu pai não acreditava, pois nem mesmo sabia quem era o filho que escrevia desvairadamente.
Mas, a solidão sempre foi minha inspiração.
Taciturno por natureza, sempre gostei de ler os grandes clássicos da literatura.
Músicas andinas sempre estiveram no meu caminho.
Um dia busquei me fazer poeta.
Mas, a vida é uma poesia.
Nunca possui boas roupas.
Nunca calcei os melhores sapatos.
Nem mesmo morei ou moro nas melhores casas.
Mas, a palavra sempre me acompanhou.
A palavra sempre foi o meu sonho ou minha realidade.
Sem algumas referências, segui meu caminho.
Descobri o amor bem cedo.
Talvez por uma necessidade, ou pela falta em alguns momentos de meu velho e querido pai.
Por amar demais, talvez tenha perdido muitas oportunidades de sucesso.
As favas o sucesso.
Viver é amar.
Amar sempre.
Com toda a força do coração.
Hoje, sem a mulher que é o grande amor da minha vida, seria um ser vazio de amor.
O amor é para ser compartilhado com versos e palavras, gestos e afagos.
O amor não precisa de dinheiro.
O amor precisa de verdade.
A verdade não possui preço.
Hoje, vejo a vida passar diante de mim, com todos os resultados das metas que tracei há muito tempo.
E ela, a vida, passa sorrindo.
Hoje lembrei de Alphonsus Guimarães.
Talvez os atalhos não sejam os caminhos.
A poesia precisa ser pura.
Quando a poesia passa a ser motivos de debates, precisamos debatê-la.
O que não podemos deixar morrer é a rebeldia que existe dentro de todos nós.
E ela existe.
A cada texto que todos nós fazemos, existe um pouco dos cabelos grandes, cheiro da madrugada, nostalgia das roupas esquisitas.
Precisamos sempre parar e lembrar que ontem fomos iguais aos nossos filhos, netos e todos estes poetas de rua que existem por ai.
Fazer poesia não é publicar livros.
Poesia poderia ser qualquer palavra escrita ou falada.
Quando minha filha recita um poema todo certinho, fico comovido, pois ela vai ser o um verso com métrica e linhas sem erros de português como os meus.
Que saudade da minha calça Us Top toda rasgada.
Que saudade do meu caderninho de anotações, que nunca precisou de mouse ou internet.
Assim como o velho poeta fecha os olhos, fecho os meus e vou ao encontro de tantas linhas que escrevi nas madrugadas de minha querida Porto Velho.
Linhas que ficam nas marcas do rosto.
Eu vi o poeta chorando.
Ele pensou que não vi.
Mas, o poeta ficou em silêncio.
Foi ai que lembrei de Alphonsus Guimarães.
Os poetas são todos iguais.
Os poetas são de todas as cidades.
Um dia busquei me fazer poeta.
Poeta, jamais!

Diz a lenda

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