terça-feira, 11 de outubro de 2011

Diz a lenda - Consciência

Por: Beto Ramos



Meu avô Aluízio, partiu pro andar de cima há muito tempo.
Mas, deixou para mim um exemplo de bom senso e honestidade.
O olhar do meu avô já era uma sentença.
Ele não desperdiçava palavras com coisas pequenas.
Meu avô cortou carne no antigo Mercado Modelo, hoje, Mercado Cultural.
Na época em que a carne vinha da Bolívia.
A única vez que vi meu avô fazer algo escondido, foi quando casei com Rosimere.
Alguns dias antes do meu casamento, ele me chamou num canto do quarto, e foi falando:
- Pegue meu filho, é pra você começar sua nova vida!
- Mas, não conta nada pra velha, que era minha avó, pois ela vai querer um monte de explicação!
Eram duzentas pratas da época.
Bem, foi uma força danada, pois eu e Rosi só tínhamos um colchão, uma geladeira usada e um fogão sem bujão de gás, que no dia do casamento, meu primo Marconi deu de presente para nós.
Meu avô pescava com flecha.
Ficava em silêncio por horas.
Parecia uma figura incorporada na floresta.
Meu avô trabalhou no Mercado Central, Mercado do Quilômetro Um.
Morou em Guajará-Mirim onde serviu o quartel.
Gostava de um porronca, que sempre ficava no canto da boca.
Fumo de rolo, desfiado na mão e se possível enrolado no papilin.
Até meu avô morrer, quase todos os dias, eu passava em sua casa, que possuía o cheiro da casa dos nossos avós.
Todos os dias o almoço era feito por minha avó, com carne com osso, batata, cebola, alho, colorau, pimenta do reino.
Nos dias de pescaria eram peixes frito, cozido e assado.
Comiam três, comiam dez.
Sempre dava pra todo mundo.
O sabor era incrível.
Muitos tomaram do caldo, de rabo de boi da minha avó.
Tem muito doutor, gente bem sucedida na vida, que talvez não lembre que passou na casa do seu Aluízio.
Meu avô construiu suas casas.
Sozinho.
Demorava, mas, aquela sua calma o conduzia sempre para a vitória.
Deste avô, eu era o único neto homem de sangue.
Ele lembrava e comentava.
Ele era pai de minha mãe.
Índio, caboclo e beradeiro como eu.
Sabia das horas olhando pro céu.
Olhando pras águas sabia se era dia de pescaria ou não.
Como tenho saudades de dizer bença vô!
Sempre na hora do almoço, meu avô contava a piada do dia.
Era um sorriso só.
Aprendi com meu avô a ser solidário.
A dividir as alegrias e as dores.
A sempre ajudar os amigos.
Mas, acima de tudo, ele me passou uma lição de que o melhor travesseiro é a nossa consciência.
Perdi todos os meus avós.
Perdi meu pai.
Só restou minha velha mãe.
Mas, não sinto solidão.
Dormir com o travesseiro que meu avô me presenteou, traz ao meu coração o orgulho de ser índio, caboclo e beradeiro.
Por estes dias nasce minha neta Ana Clara.
O berço ela já tem.
O travesseiro eu dou de presente.

Diz a lenda

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