terça-feira, 26 de abril de 2011

RESPEITEM PORTO VELHO: OS FILHOS DO PAC

“Para aqueles que pensam que a batalha não está perdida e esperam a chegada de uma nova era de esperança e felicidade, a notícia não é boa!!!!”






foto: Thércia



no Triângulo, os trilhos da EFMM jogados às traças, suspensos no ar e decadentes, a cara de Porto Velho
Há muito tempo, a promessa de que Porto Velho seria o Eldorado para uns e a Terra Prometida para outros, onde os bons ventos do progresso econômico continuariam soprando como se aqui fosse litoral, tem entrado em contradição com o desespero temerário da atualidade, na cidade onde uma população composta por uma miscelânea cultural das mais improváveis combinações não foi preparada para receber mais uma tsunami demográfica, o que parece ser sua vocação.

A primeira, no final do Século XIX e início do Século XX, na qual mais de 40 nacionalidades se aglomeraram em plena Floresta Amazônia, recepcionadas pela beribéri, pela malária e muita taquara dos índios Karipunas para construir um colosso movido a vapor sobre os trilhos em que cada dormente representava uma vida... E que não deu em nada.

A segunda foi a febre do minério (cassiterita e ouro) e da frente de expansão agropecuária, dos anos 1950/70, responsável por um forte processo de descaracterização cultural das populações locais e surgimento de uma nova configuração geopolítica no interior do Estado de Rondônia, empurrando a população nativa para Guajará-Mirim, Costa Marques (devido ao isolamento geográfico) e alguns bairros e distritos de Porto Velho.

Nesse período, foram concebidos projetos mirabolantes, assim como seus idealizadores e asseclas, muitos destes mais nefastos do que os próprios projetos, sem contar com aqueles que aqui chegaram, trazendo somente a fome e a pobreza, e aqui tiveram oportunidades que nunca teriam em sua terra natal, e que dilapidaram nosso patrimônio e, ainda, saíram falando mal de nosso local e do nosso Povo.
Outro momento foi o boom-colapso do garimpo, que gerou um dos ciclos mais perniciosos, principalmente para a juventude, em nossa Cidade, onde o surgimento de novas espécies de drogas para manter acesos os motores das dragas e balsas que, em certos momentos, davam a impressão de ser uma cidade flutuante de ouro e mercúrio, juntamente com a classe política emergente, repleta de marginais, destacada mais por sua ação criminal do que cívica, foram alguns dos fatores responsáveis pelo surgimento dos bolsões de miséria da periferia de Porto Velho, que apesar de pobre não se arrastava na lama negra da miséria que assolou esses bairros, após a débâcle do garimpo.
Registro de nascimento sem nome do pai, pois a própria mãe não sabia quem o era, a “mela” queimando as pontas dos dedos e derretendo os cérebros desde crianças aos idosos, a AIDS e DST’s contaminando desenfreadamente, sem contar com surgimento das “gangues” (logo dispersadas pela ação policial) foram algumas das conseqüências desse ciclo.
No interstício entre meados da década de 1990 e a meados da primeira do Século XXI, Porto Velho observou a construção do porto graneleiro (promessa que seria a portal do desenvolvimento de Rondônia, para o escoamento da produção para o mundo) e a transumância do gado oriundo do Cone Sul do Estado, o que foi responsável pelos maiores índices de desmatamento registrados na região.
Com uma malha viária precária, déficit habitacional, invasões de áreas protegidas, deficiência de serviços básicos de saúde, educação e segurança pública, massacres ocorrendo nos presídios e sucateamento de instituições públicas é anunciada a construção das hidrelétricas do Santo Antônio e Jirau, que foi ovacionada como se o próprio Cristo estivesse voltado para a Terra.
Especulação imobiliária, engarrafamento de automóveis com placas dos lugares mais improváveis do Brasil, o enxame de motos e carros, a “mela” trocada por oxidado e crack, aumento da violência, obras que nunca foram concluídas e os filhos do garimpo junto aos trabalhadores e afetados pela indústria barrageira, a nova proliferação da AIDS (PVH é a terceira cidade com maior número de infectados), políticos e empresários em conluio interessados nos recursos do PAC, viadutos inacabados e buracos, buracos e mais buracos.
Esse é o atual cenário proporcionado por mais um mega-empreendimento em nossa cidade, que apesar de ter ocorrido um crescimento econômico expressivo e gerado muitos empregos formais, tem observado a revolta de trabalhadores por não atendimento dos acordos firmados, sem contar com que as obras estão no ápice de empregabilidade e a tendência é diminuir os empregos que foram gerados, fato já observado com a construção da Usina de Samuel (cachoeira que era uma das belezas cênicas mais formidáveis de Porto Velho, pois ainda não havia Candeias do Jamary) e, que até hoje os excluídos de seu processo de indenização reclamam seus direitos.
Levando em consideração que a conjuntura tem uma séria tendência ao caos, e não nos referimos ao caos criativo, que apesar do cenário que é semelhante ao Quinto do Círculo do Inferno dantesco, ainda tem gente fazendo arte de qualidade em Porto Velho.
Tal manifestação é uma autocrítica de quem por muito tempo permanecemos na inércia, e que apesar da consciência política, ainda não havia incorporado o Zeitgeist (Espírito do Tempo) de uma cidade cujo engajamento político (suprapartidário) deve ser a ordem do dia, pois não se trata mais de buscar a salubridade, mas de manter a sanidade, de buscar nossa identidade e de transformar o nosso próprio destino para que não ocorra o que aconteceu com a geração atual que não teve quem lutasse por ela. Hoje, nós temos os filhos do garimpo e poderemos amanhã ter os filhos do PAC, que com a nossa omissão podem ter um futuro pior do que nós nos encontramos.
O fato é que nós filhos nativos ou adotivos de Porto Velho temos a obrigação de fazer o nosso papel, através da participação efetiva nos processos que determinam os rumos de nossa Cidade e, conseqüentemente, de nossas vidas, pois estamos vendo a história se repetir numa proporção muito maior do que já ocorreu, destruindo nossos sonhos e cachoeiras.
Portanto, sem a organização social e mobilização necessária para cobrarmos de nossas autoridades o cumprimento da lei e a aplicação correta dos recursos públicos, não garantiremos um futuro melhor para nossas crianças. Nós somos os únicos protagonistas do nosso presente e futuro. E isso não vai acontecer com um comportamento zen-niilista estando de braços cruzados e de boca calada esperando a construção de uma nova sociedade sobre os escombros da anterior, sem mover uma palha para isso. Vamos usar nossos corpos e mentes para reconstruir nosso Município.

Ação Popular: Respeitem Porto Velho!!!!

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