quarta-feira, 20 de abril de 2011

NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO




O narcisismo é um conceito psicanalítico criado por Sigmund Freud, que adotou o termo a partir do mito grego de Narciso. A origem da palavra Narciso,do grego Narkissos, vem de narkes, que significa entorpecimento, torpor, inconsciência. A palavra narcótica é derivada e indica qualquer substância que produza alteração dos sentidos, gerando narcose.
Faz-se correlação ao termo, também com a flor denominada narciso, bela e solitária, que nasce na beira dos rios, cuja existência é frágil e efêmera.
O narcisismo, cujo nome Freud tomou de empréstimo ao mito grego de Narciso, o jovem que enamorou-se de sua própria imagem espelhada na superfície de um lago, ficou associado, em nossa cultura, à idéia de vaidade que seria, dentre os sete pecados capitais, o mais grave, pois todos os outros derivariam deste.
Conforme o mito explicita, a idéia de narcisismo está vinculada à questão da imagem e esta, por sua vez, à noção de identidade. A imagem corporal é o primeiro esboço sobre o qual irão se desenhar, posteriormente, as identificações constitutivas da personalidade.
Assim sendo, ao abordarmos o tema do narcisismo, não podemos deixar de fazer uma reflexão acerca da função primordial da imagem no mundo contemporâneo, motivo pelo qual alguns teóricos enfatizam que vivemos no interior de uma cultura do narcisismo, entendendo-se por isto, uma cultura voltada para a imagem e para o individualismo.

Lembramos de um comercial que dizia: “ imagem é nada, sede é tudo. Obedeça sua sede, beba o refrigerante que você deseja.” O que se pode depreender desta palavra de órdem? Obedeça a sua sede, sua pulsão, seu desejo e não àquilo que um outro refrigerante promete fazer por sua imagem.É tão grande o poder da imagem em nossa cultura midiática, que o sucesso do referido comercial decorre da estratégia de utilizar a antítese, imagem é nada, para antagonizar seus concorrentes que afirmam: imagem é tudo.
Vemos então, que os conceitos de narcisismo, ego e identidade encontram-se estreitamente ligados. É pelo olhar do outro, especialmente este outro materno que encarna todas as nossas possibilidades de satisfação, prazer e segurança, que aprendemos a saber quem somos. Se o olhar deste Outro brilha por nós e se em algum momento pudermos nos sentir capazes de preencher este Outro de alegria, estaremos constituindo nosso amor próprio, aprendendo a ler no espelho do olhar do Outro, que nossa existência vale a pena e tem um sentido, nem que este sentido seja, num primeiro momento, preencher os anseios deste outro que significa tudo para nós, condição mesma de nossa existência. Mas não podemos parar por aí, estancando neste lugar de colagem onde nosso desejo não se distingue nem se diferencia, mas, ao contrário, se reduz ao desejo do Outro.
Ora, falar aqui do conceito freudiano que versa sobre o narcisismo, e logo sobre a imagem, é oportuno, para ilustrar a polêmica criada pelos impropérios lançados ao mundo, por Rafinha Bastos, standuper do CQC, através da net, denegrindo a imagem e a dignidade dos rondonienses.
Chamou-nos de feios e de filhos do Diabo... Ora, isto feriu de morte o narcisismo de nosso povo, que também xingou, ofendeu, falou até em impetrar ação civil pública junto ao MPF, para punir o humorista, pelo dito maldito!
Eis aqui então, Narcisos que somos, diante da mais viciosa das dependências: a da sempiterna aprovação e confirmação pelo outro, seja pela auto-imagem de si mesmo ou pelo testemunho externo, daquele que nós gostaríamos de ser. Negação de nós mesmos, incurável ingratidão....
Esse outro, Rafinha Bastos defendeu-se, dizendo que todos estão ao alcance dos tentáculos dos chistes do humor... Assim como ele disse que rondoniense é feio, há muito se diz que carioca é malandro, paulista é workholic, baiano é preguiçoso, mineiro é sacana, gaúcho é viado, e muitos outros estados que tem seu estereótipo mimeografado no ideário nacional. Defendeu-se dizendo que fazer graça com os defeitinhos dos outros é o que garante o mote e o ganha-pão de seu ofício: fazer rir!
Talvez ainda estejamos em infimo desenvolvimento psicossocial... Não suportamos a ferida narcísica! Pois bem, a dialética promovida em torno da polêmica foi bemvinda, reforçou nosso sentimento de "pertença", de recomposição de autoimagem lacerada, houve aí uma necessidade de aceitação,o querer ser aprovado pelo mundo, estar sempre agradando.., . assim, sem mais delongas, para não querer massagear mais o ego de quem quer que seja, termino, parafraseando Caetano Veloso:
"Quando te encarei frente a frente,
não vi o teu rosto,
chamei de mau-gosto o que vi,
de mau-gosto, mau-gosto,
é que Narciso acha feio o que
não é espelho"...

Myriam Queiroz
Psicóloga Clínica
CRP. 01-11.221

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