quinta-feira, 7 de abril de 2011

DIZ A LENDA – O QUINTAL DA SAUDADE

Por: Beto Ramos


Lembrei-me das castanholas.
Ficavam caídas pelo chão.
Caiam de uma castanholeira enorme.
Castanholeiras que resistiram ao tempo, mas não suportaram ao progresso.
Lembrei-me das mangas.
Mangas comuns.
Saborosas e doces.
Eram comidas com farinha d’água a qualquer hora do dia.
Eram frutos de uma frondosa mangueira.
Lembrei-me dos tucumãs.
Também caiam pelo chão.
Tucumãs carnudos, também comidos com muita farinha d’água.
O tucumanzeiro era local de caça na época em que era permitido fazer alguma coisa no leite da castanha.
Lembrei-me dos jenipapos.
No ar ficava o seu cheiro forte quando caiam pelo chão.
Jenipapos dos licores de outrora.
Era um jenipapeiro bem maior que a minha saudade.
Lembrei-me das ingazeiras.
Saboroso ingá.
Dos dois tipos.
Ingá cipó e a outra pequena que dava até entupimento.
Eram ingazeiras que causaram muita peia e surras na meninada.
Lembrei-me do cajueiro.
Cajus vermelhos e amarelos.
E tinha o cajuí que era pequeno e doce como mel.
O tronco dos cajueiros eram todos raspados para fazer remédio caseiro.
Lembrei-me do murici.
Com sua cor amarela.
Os muricizeiros existiram em algum lugar desta saudade.
Este é o que mais gosto.
O cupuaçu.
Existiam muitos cupuaçus ao alcance de nossas mãos.
- Vem menino, vem tomar vinho de cupuaçu!
E faziam cremes.
Recheio de bolo.
E dava para comer somente com açúcar.
E o doce era saboroso.
- Quando você for ao mercado compra um saquinho de polpa de cupuaçu!
- Eu não! Gosto é de vinho de cupuaçu com caroço, feito e amassado com a mão.
E tinham os biribazeiros.
- Você gosta de fruta do conde?
- Não! Gosto de biribá!
Poderia ser ata.
E tinha um cajazeiro.
Taperebá!
Pela manhã aquele cheiro era muito bom.
E eram comidos muitas vezes com uns bichinhos brancos.
Este era gigante.
Não dava para subir de jeito nenhum.
Lembrei-me das abacabeiras!
Vinho de abacaba.
Delicioso e gorduroso.
Quando meu avô fazia, nunca se esquecia de guardar pra mim.
Os açaizeiros eram muitos.
Vovô subia com peconha.
E eles envergavam muito.
Mas, vovô descia com o cacho na mão.
E era uma festa para fazer vinho de açaí.
- Vê se a água esta morna menino!
- Cuidado se não o açaí vai encruar!
Nunca comi um palmito de açaizeiro.
Lembrei-me dos buritizeiros.
Ainda existem muitos por aí.
As talas dos papagaios eram tiradas deles.
Com as talas do buritizeiro fizemos papagaios e muitas tranças, cortamos um monte com das menas, e quando não dava fazíamos guzuba.
Lembrei-me do pé de cajarana.
Este foi embora primeiro, pois ficava bem na divisa dos quintais.
Enquanto existiam cercas ele sobreviveu.
Chegando o muro.
Foi sacrificado, sendo observado pela tristeza dos nossos olhos.
Lembrei-me do marmeleiro.
Frutas vermelhas que nunca saíram de minha lembrança.
Há muito tempo não vejo um pé de marmelo.
Na beira do poço, existia um pé de tamarindo.
Azedo de fazer careta.
O suco era muito saboroso.
Sabe poeta nós temos algumas coisas em comum.
Quando fecho os meus olhos também começo a lembrar de tantas coisas.
Éramos felizes e não sabíamos!

Diz a lenda

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