quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Diz a lenda - PORTO SOLIDÃO I

Por: Beto Ramos



No meu porto de solidão, ancorando a nostalgia, vem a lembrança de uma Porto Velho que até outro dia quase cabia na palma de uma mão.

Coisa alguma era distante.

Todos se conheciam.

E tudo mudou.

Chegaram os prédios e um monte de automóveis.

O que era visto antes na televisão, agora vivemos ao vivo e a cores.

Temos até engarrafamento.

Ao descer a ladeira ao lado do Palácio Getúlio Vargas, são pouquíssimas as pessoas que conhecemos.

Então, vou ficando com os meus ouvidos bem abertos para ouvir as histórias e estórias da nossa gente.

No meu porto de solidão, existia a lagoa do Boi que ficava na Rua Getúlio Vargas próximo a Avenida Carlos Gomes.

Dizia meu avô que ali havia morrido um boi afogado.

Na esquina da Getúlio com Carlos Gomes, morava o seu Bastos que fazia colchão de campim.

Na Rua Salgado Filho com a Avenida Carlos Gomes morava o seu Biô, que gostava sempre de tomar algumas a mais.

Na Getúlio com a Rua Duque de Caxias, fica a Taberna Pindaré.

Neste espaço passei muitos dias das páginas de minha história.

E quando passava o seu Chicão, a meninada toda corria, pois minha avó dizia que ele era o homem do saco.

Ali no meio da quadra na Avenida Carlos Gomes entre Getúlio e Salgado Filho morava a Dona Dadá.

E Dona Dadá fazia nossa quadrilha com música na Vitrola embaixo de um grande pé de cajá.

Todo ano a música era a mesma.

E Dona Dadá nos levava para sermos coroinhas.

E muitas vezes não conseguíamos conter o riso ao vermos os amigos com aquela roupa de padre.

Hoje, a casa de Dona Dadá está fechada.

Existe somente um silêncio cheio de nostalgia.

Mas, ainda consigo ouvir a música que tocava na Vitrola.

Basta fechar os olhos.

Quando nos reuníamos, logo vinham idéias de irmos tomar banho no Oteca, Alberico, Bate-Estacas.

Muitas vezes tomávamos banho na Lagoa do Boi.

Como era divertido.

Quando chegou a televisão era uma festa só.

Reuníamos-nos na janela de alguém, pois somente alguns possuíam televisão.

Parecia um cinema na Colorado RQ.

E havia a propaganda da Colorado RQ que era assim: Está comprovado! Agora podemos dizer! Colorado RQ o melhor televisor colorido do Brasil!

E nossos quintais não possuíam cercas.

Eram caminhos que sempre nos levavam aos melhores dias de nossas vidas.

No meu porto de solidão, ancorando a nostalgia, chegam tantas lembranças, que fechando os meus olhos volto a esta página da vida que sempre existe dentro de todos nós.

Os banhos e igarapés com aquela água geladinha e limpa, só existe na lembrança.

Muitas vezes sinto vontade de comprar algo na Taberna Pindaré.

Mas, o que eu gostava mesmo era de ficar olhando para o céu.

Imaginava mil aventuras neste livro tão pequeno que se tornou a minha vida.

Depois tem mais!



DIZ A LENDA

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